

Bashir Adejumo
Da Filosofia ao Fio: A Voz por Trás de AJINDE.
Redação Le Afrique Brazil
Se AJINDE é um manifesto visual, então suas estruturas revelam mais do que técnica, revelam intenção. Ao observar as silhuetas cerimoniais, a precisão quase arquitetônica da alfaiataria e a presença simbólica que atravessa cada peça, torna-se evidente que a coleção não nasce apenas do design, mas de um posicionamento consciente. Há uma convicção silenciosa costurada em cada costura. Em um momento em que a moda global revisita suas referências culturais e redefine seus centros de influência, a Ventunna Bespoke Fashion escolhe não se adaptar ao olhar externo, escolhe reafirmar sua própria matriz estética e espiritual. Para compreender plenamente o que significa vestir um renascimento, é necessário ouvir a mente que o concebeu. Nesta conversa exclusiva para a Le Afrique Style Brazil, Bashir Adejumo compartilha os fundamentos filosóficos de AJINDE, sua relação íntima com a cosmologia iorubá, o papel do Ifá na construção da coleção e a responsabilidade de traduzir herança ancestral em linguagem contemporânea. Mais do que uma entrevista, trata-se de um diálogo sobre identidade, poder simbólico e o futuro da moda africana no cenário internacional. A seguir, o fundador e diretor criativo da Ventunna Bespoke Fashion fala sobre visão, estrutura e verdade.


MG – Sua marca existe na interseção da cosmologia africana, da memória e da alfaiataria estruturada. Em que momento da sua trajetória você percebeu que sua linguagem criativa precisava transcender a moda e se tornar um posicionamento cultural?
Bashir A: Percebi isso quando entendi que a alfaiataria, em minhas mãos, não era simplesmente construção, era reconstrução. Reconstrução da memória. Reconstrução da identidade. Reconstrução. De narrativa. Crescendo em uma linhagem de designers, a roupa nunca foi apenas estética; era disciplina espiritual e arquitetura social. Com o tempo, percebi que, se continuasse a criar sem questionar a história, estaria apenas produzindo peças de vestuário. Mas se criasse a partir da cosmologia, da consciência ancestral, da epistemologia africana, então o trabalho se tornaria posicional. Ventunna Bespoke não decora o corpo. Ela o reposiciona na memória.
MG – Vindo de uma família de designers e tendo sido moldado por mais de uma década de experiência prática na confecção de roupas, de que forma essa base artesanal influenciou sua resistência à natureza rápida e cíclica da moda global?
Bashir A: O trabalho artesanal ensina a paciência. E a paciência resiste às tendências. Minha formação em construção manual, modelagem, estruturação interna e disciplina de costura me ensinou a valorizar o processo em detrimento da velocidade. A moda rápida prospera na imediatidade; a alfaiataria sob medida prospera na intencionalidade. Como entendo as roupas de dentro para fora, não posso encarar o design como algo descartável. Cada peça deve ter uma estrutura duradoura. Minha resistência à moda cíclica não é rebeldia, é disciplina.
MG – Em AJINDE, o conceito de renascimento é central. Esse renascimento é pessoal, coletivo ou civilizacional. E como ele se manifesta tecnicamente nas silhuetas e na composição estrutural da coleção?
Bashir A: AJINDE fala sobre o renascimento da civilização. O renascimento é a memória africana reivindicando autoridade estrutural. Tecnicamente, isso se manifesta através de exageros controlados, ombros amplos, pregas arquitetônicas e drapeados estruturados que sugerem emergência. As silhuetas são projetadas para transmitir uma sensação de ascensão. O renascimento em AJINDE não é algo suave. É arquitetônico.
MG – Seu trabalho frequentemente confronta a marginalização histórica dos sistemas espirituais africanos. Como você traduz princípios filosóficos e cosmológicos, como Ifá, Èxù e Xàngó, em arquitetura têxtil sem reduzi-los a uma superfície simbólica? referências?
Bashir A: Recuso-me a aceitar simbolismos literais. Em vez de imprimir divindades ou imitar vestimentas rituais, estudo princípios cosmológicos como sistemas de equilíbrio, polaridade, dualidade e transformação. Ifá ensina estrutura e adivinhação, o que se traduz em uma lógica de padrões intencionais. Èxù representa movimento e mediação, o que se manifesta através da assimetria e do trabalho de costura direcional. Xàngó incorpora força, expressa por meio de ombros estruturais arrojados e linhas de tensão. A filosofia se transforma em geometria.
MG – Você foi reconhecida por sua recusa ao “exotismo decorativo”. Em um mercado global que muitas vezes consome cultura como tendência estética, como você mantém a integridade conceitual em grandes plataformas internacionais?
Bashir A: Ao projetar pensando primeiro na ancestralidade e depois no público. Quando seu trabalho responde à história, ele não pode se tornar mera fantasia. Eu não represento a “africanidade”. Eu a construo a partir dela. Grandes plataformas podem contextualizar o trabalho como vanguarda, mas sua origem permanece culturalmente enraizada. A integridade é preservada por meio da autoria.
MG – Apresentar seu trabalho na Semana de Moda de Nova York o coloca em um dos circuitos de moda mais visíveis do mundo. Como você percebe o diálogo entre uma estética afrocentrada e o discurso da vanguarda contemporânea?
Bashir A: O diálogo não é de oposição, mas sim de correção. A vanguarda há muito reivindica a experimentação estrutural como inovação. Os sistemas de vestuário africanos sempre incorporaram experimentação estrutural. Ao trazer a estética afrocentrada para esse espaço, não estamos apenas entrando na conversa, mas sim ampliando sua precisão histórica.
MG – Suas peças funcionam quase como artefatos culturais. Você vê a moda como uma forma de prática arquivística, um documento vivo de identidade?
Bashir A: Absolutamente. Em muitas sociedades africanas, o vestuário antecede a documentação escrita. Ele codificava status, linhagem, espiritualidade e geografia. Nesse sentido, a moda é uma tecnologia de arquivamento. AJINDE funciona como um arquivo vivo, que restaura capítulos apagados.
MG – AJINDE fala sobre recuperar o que foi silenciado. No contexto global atual, você acredita que a moda pode funcionar como uma ferramenta para a restauração narrativa de culturas historicamente marginalizadas ou mal representadas?
Bashir A: Sim, mas apenas se for estruturalmente honesto. A restauração narrativa exige profundidade, não estética. Requer pesquisa, diálogo com a comunidade e fundamentação filosófica. A moda pode restaurar a narrativa quando deixa de buscar aprovação e começa a afirmar sua posição.
MG – Le Afrique Style Brazil foi criada como uma plataforma para amplificar as vozes da moda africana e da diáspora africana no Brasil. Como você vê o papel de plataformas editoriais especializadas na construção de pontes entre a África e a América Latina?
Bashir A: Plataformas editoriais como esta são infraestruturas críticas. A África e a América Latina compartilham histórias entrelaçadas de deslocamento, resistência e reinvenção cultural. Plataformas especializadas criam intercâmbio intelectual que transcende os sistemas comerciais da moda, possibilitando a soberania narrativa. Esta ponte não é simbólica, é estratégica.
MG – Por fim, na sua opinião, qual é a importância estratégica e simbólica da África no circuito global da moda contemporânea. E como a consciência ancestral africana pode continuar a influenciar o futuro da moda internacional de uma forma autêntica e estruturalmente fundamentada?
Bashir A: A África não está emergindo. A África é fundamental. A importância estratégica reside na autoria, no controle da produção, na narrativa e na interpretação estrutural de nossas linguagens de design. A consciência ancestral deve ir além da inspiração superficial e alcançar a participação institucional, a educação, a manufatura, a publicação e os espaços curatoriais. O futuro da moda exigirá profundidade. A África sempre criou designs a partir da profundidade.

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