

Gita Dzhavid
A arquiteta de um ecossistema global onde moda, cultura e inovação convergem.
Por Eliana Oliveira
Editora de Moda
Antes de falar sobre plataformas, inovação digital ou sustentabilidade aplicada à moda, é preciso falar sobre visão. Gita Dzhavid não ocupa apenas um lugar de liderança dentro da indústria da moda global, ela constrói estruturas onde a moda pode existir com propósito, continuidade e impacto real. Fundadora e Presidente da Unique Fashion Foundation Association (França) e criadora do Unique Fashion Show, Gita atua no ponto exato onde criatividade, estratégia e diplomacia cultural se encontram. Sua trajetória revela uma profissional que compreende a moda a partir de dentro: do olhar sensível de quem viveu a experiência da passarela à consciência estratégica de quem domina processos, sistemas e relações internacionais. Existe na sua forma de conduzir a Unique Fashion uma elegância silenciosa, característica de líderes que não precisam anunciar autoridade, ela se manifesta naturalmente. Cada decisão, cada projeto e cada parceria refletem uma compreensão profunda de que a moda contemporânea não pode mais ser fragmentada. Ela precisa ser ecossistema. A vivência direta no universo da moda, aliada a uma sólida atuação em consultoria e desenvolvimento de negócios, permitiu a Gita transformar visão criativa em plataformas escaláveis e sustentáveis. É sob sua liderança que a Unique Fashion se consolida como um espaço de descoberta, desenvolvimento e conexão entre talentos emergentes, instituições culturais e mercados globais. Sua atuação vai além da estética. Ao integrar moda, arte, inovação digital, projetos phygital e iniciativas no metaverso, Gita reposiciona a moda como uma linguagem do presente e do futuro. Um meio de diálogo entre culturas, territórios e gerações, e também uma ferramenta de impacto social e diplomacia cultural. Em um cenário global marcado por rupturas e reconstruções, a criação da Unique Fashion, no período pós-pandemia, surge como resposta consciente à fragmentação criativa internacional. Sob sua condução, a plataforma se torna um ponto de convergência entre Europa, Cáucaso, Ásia Central, Estados Unidos e outros polos criativos emergentes, promovendo intercâmbio cultural, inovação responsável e novas narrativas para a indústria. Iniciativas como Women in Search of Freedom, idealizadas por Gita, reforçam seu compromisso com a amplificação de vozes femininas e com a liberdade de expressão criativa como valor fundamental da moda contemporânea. Aqui, empoderamento não é discurso, é estrutura, acesso e oportunidade. Falar de Gita Dzhavid é falar de uma liderança que compreende que a moda só permanece relevante quando assume responsabilidade cultural, social e estratégica. Seu trabalho não segue tendências; ele constrói caminhos. E é exatamente essa visão que posiciona a Unique Fashion Show como uma das plataformas mais consistentes e respeitadas do cenário global atual.


A ALMA FASHIONISTA DA UNIQUE FASHION – GITA DZHAVID.
MG – Sua carreira transita entre moda, cultura, negócios e tecnologia. Em que momento você percebeu que sua visão ia além de uma carreira tradicional na indústria da moda?
Gita: Em determinado momento, ficou claro que a trajetória tradicional dentro da moda era limitada demais para os desafios que eu queria enfrentar, culturais, sociais e estratégicos. Deixei de me interessar em estar apenas “dentro da indústria”. O que passou a ser realmente importante foi repensar a própria arquitetura do sistema: como o significado é construído, como o acesso é distribuído, como funcionam os “elevadores” sociais e profissionais, e quem recebe visibilidade versus quem permanece invisível. A moda deixou de ser uma profissão para mim e passou a ser uma ferramenta, uma linguagem por meio da qual é possível falar sobre transformação social, identidade e futuro.
MG – Como sua experiência como modelo, inclusive na Mercedes-Benz Fashion Week, moldou sua percepção crítica sobre os bastidores da indústria e os desafios enfrentados por talentos e marcas?
Gita: Trabalhar como modelo me proporcionou uma visão honesta e por vezes dura, dos mecanismos internos da indústria. Por trás do glamour externo, existem profundos desequilíbrios estruturais: acesso desigual às oportunidades, falta de apoio de longo prazo e “elevadores” profissionais muito frágeis para talentos emergentes. Vi muitos designers e marcas extremamente fortes desaparecerem, não por falta de criatividade, mas por ausência de infraestrutura, estratégia e acesso a novos mercados. Essa compreensão se tornou a base para a criação de uma plataforma que não apenas exibe talentos, mas apoia ativamente o seu crescimento.
MG – Você costuma dizer que a Unique Fashion nasceu de um profundo entendimento das dinâmicas criativas e operacionais da moda. O que, na sua visão, precisava ser reinventado nesse sistema?
Gita: Antes de tudo, o acesso e os mecanismos transparentes de crescimento. A indústria precisa de “elevadores” reais: competições, chamadas abertas e programas de apoio que permitam que talentos emerjam independentemente da geografia ou da condição financeira. Desenvolvemos ativamente competições para designers de moda, artistas de IA e 3D e criadores sustentáveis. Uma dessas competições contou com o apoio do Institut Marangoni Paris, onde o vencedor recebeu um curso completo da instituição. Esse é um exemplo claro de como uma plataforma pode gerar oportunidades reais, e não apenas gestos simbólicos. Além disso, o próprio formato da moda precisava se expandir, dialogar com arte, tecnologia, sustentabilidade e realidades sociais.
MG – A Unique Fashion foi lançada em 2022, em um mundo ainda marcado pelo contexto pós-pandemia. Quais lacunas você identificou no cenário criativo global que impulsionaram a criação da plataforma?
Gita: A pandemia expôs a fragilidade de todo o sistema. Comunidades criativas ficaram sem palcos, sem público e sem pontos de entrada. Designers de países menores, ou sem acesso aos mercados globais, foram especialmente vulneráveis. A Unique Fashion surgiu como resposta a essa lacuna, como uma plataforma capaz de criar espaços internacionais de visibilidade, intercâmbio e diálogo.
MG – A Unique Fashion não é apenas um desfile de moda, mas um ecossistema interdisciplinar. Qual foi o maior desafio ao transformar uma visão criativa em uma plataforma sustentável e escalável?
Gita: O principal desafio foi equilibrar liberdade criativa e estrutura. Desde o início, desenhamos a plataforma para ser escalável sem perder profundidade ou significado. A UFFA trabalha com cotas de participação: com o apoio da fundação, oferecemos oportunidades para designers de países pequenos ou sem acesso ao palco global. Isso exige pensamento estratégico, parcerias e uma estrutura operacional clara.
MG – Como sua formação em consultoria e estratégia influenciou a estrutura e a governança da Unique Fashion Foundation Association?
Gita: Ela me permitiu construir a plataforma como um sistema, e não como um evento pontual. Ajudamos marcas a entrar em novos mercados, estabelecer conexões internacionais e alcançar novos públicos. Esse componente de expansão de mercado é um pilar estratégico poderoso da sustentabilidade, não apenas ecológica, mas também econômica e cultural.
MG – A inovação digital, os projetos digitais e o metaverso fazem parte do DNA da Unique Fashion. Como você enxerga o papel dessas tecnologias na redefinição da experiência contemporânea da moda?
Gita:
A inteligência artificial, o design 3D e os ambientes imersivos removem barreiras de entrada. Eles criam oportunidades para pessoas que antes estavam excluídas do sistema. Essas ferramentas promovem inclusão, consumo consciente e novas formas de estética.
Por meio de projetos digitais, ampliamos o público ao mesmo tempo em que oferecemos alternativas à produção física excessiva.
MG – Na sua visão, a moda do futuro será mais digital, mais humana ou necessariamente uma fusão dos dois mundos?
Gita: Será, sem dúvida, uma síntese. A tecnologia potencializa o humano, mas não o substitui. Valores, identidade e significado precisam permanecer no centro.
MG – Como a inteligência artificial, o design 3D e os ambientes imersivos podem ampliar o acesso e a inclusão nas indústrias criativas globais?
Gita: Eles tornam o talento móvel. De onde você vem importa menos do que o que você cria. Isso muda fundamentalmente a estrutura da indústria e a torna mais equitativa.
MG – Sustentabilidade e moda responsável ocupam um lugar central dentro da UFFA. Como equilibrar inovação, estética e impacto ambiental em um mercado ainda movido pelo consumo acelerado?
Gita: Trabalhamos com designers que promovem upcycling, reciclagem, produção limitada e formatos digitais. Para nós, sustentabilidade não é uma limitação estética, mas sua evolução. A inovação nos permite criar beleza de forma responsável e consciente.
MG – Que tipo de responsabilidade você acredita que as plataformas internacionais de moda devem assumir diante das crises sociais, ambientais e culturais do nosso tempo?
Gita: Elas devem atuar como espaços de diálogo e apoio. Plataformas de moda não podem permanecer neutras; elas refletem a sociedade e precisam participar de sua transformação, acolhendo diversidade e identidade.
MG – A iniciativa “Women in Search of Freedom” carrega um nome forte e simbólico. O que significa liberdade para você no contexto da criação feminina e da moda global?
Gita: Liberdade é o direito à voz, à escolha e à visibilidade. Hoje, as mulheres estão cada vez mais ativas e responsáveis, muitas vezes menos agressivas e mais construtivas, exatamente as qualidades de que o mundo contemporâneo precisa. Liberdade significa poder criar sem medo e sem compromissos impostos.
MG – Como a Unique Fashion trabalha para amplificar vozes femininas de regiões sub-representadas e integrá-las de forma ética à economia criativa internacional?
Gita: Por meio de apoio de longo prazo, contratos justos, exposição internacional e respeito ao contexto cultural. Nosso foco está na ação concreta: oferecer plataformas, criar oportunidades, colaborar com organizações sem fins lucrativos e promover a inclusão de forma consistente.
MG – Você acredita que a moda pode realmente ser uma ferramenta de diplomacia cultural e transformação social? Como isso se materializa na prática?
Gita: Sim, e ela já é. A moda fala a linguagem das imagens, que não precisa de tradução. Também é um espaço relativamente seguro para o diálogo, algo especialmente importante no mundo atual.
MG – A Unique Fashion conecta Europa, Cáucaso, Ásia Central, Américas e Estados Unidos. O que mais te inspira nesse intercâmbio intercultural?
Gita: A autenticidade. Essas regiões carregam significados profundos e códigos visuais fortes. Identidades formadas ao longo de séculos se manifestam nas coleções, nas formas de pensar e nas abordagens criativas. Também me inspira o talento e a interculturalidade, quando pessoas que falam línguas diferentes se encontram em uma mesma plataforma, unidas por uma linguagem comum: a criatividade.
MG – Como as parcerias com instituições culturais e corpos diplomáticos contribuem para posicionar a moda como uma linguagem universal de diálogo entre culturas?
Gita: Elas acrescentam peso institucional e criam oportunidades de interação. Colaboramos com corpos diplomáticos de diversos países e construímos plataformas internacionais de representação e diálogo.
MG – Reconhecimentos do setor, como sua nomeação para um prêmio de Inovação em Moda, validam sua visão de longo prazo. O que esse reconhecimento representa para você pessoalmente?
Gita: São confirmações do caminho escolhido, mas nunca o objetivo final. Impacto real e mudança significativa importam muito mais.
MG – Que legado você espera construir com a Unique Fashion para as futuras gerações de criativos?
Gita: Um legado de portas abertas e oportunidades sistêmicas. O direito de ser visto e ouvido, independentemente da origem, do gênero ou das condições iniciais.
MG – Se a Unique Fashion tivesse uma alma, além da estética e da inovação, como você a descreveria em poucas palavras?
Gita: A alma de uma viajante, aberta, curiosa e profundamente respeitosa da diversidade do mundo.
MG – A moda brasileira carrega uma identidade poderosa, marcada pela diversidade cultural, criatividade e inovação. Como você enxerga o Brasil no mapa global da moda contemporânea?
Gita: O Brasil representa energia, fisicalidade, cor e um código cultural poderoso que vem moldando cada vez mais a narrativa criativa global.
MG – A moda africana vem ganhando visibilidade internacional, não apenas pela estética, mas também por sua força simbólica, ancestral e sustentável. Como você interpreta o papel da África na redefinição do futuro da moda global?
Gita: A África reconecta a moda ao significado, às raízes e à sustentabilidade. Sua vitalidade, cor, ritmo e filosofia já estão transformando a linguagem visual global.
MG – Considerando a vocação intercultural da Unique Fashion, existe o desejo ou algum projeto em desenvolvimento para levar a plataforma e o Unique Fashion Show ao Brasil? Como você imagina essa conexão com o ecossistema criativo brasileiro?
Gita: Novas geografias, presença internacional mais forte, expansão do desenvolvimento de talentos, competições, parcerias e programas sociais.
MG – Quais são os próximos projetos e expansões da Unique Fashion Foundation Association e do Unique Fashion Show, especialmente em relação à inovação, impacto social e novas geografias criativas?
Gita: Centralidade no ser humano. Personalidade. Visibilidade. Isso é realista, e absolutamente necessário.
MG – Quando você olha para o futuro da moda e das indústrias criativas, qual é a mudança mais urgente e mais possível que ainda precisa acontecer?
Gita: A mudança mais urgente e viável é a transição para uma verdadeira centralidade humana. Isso significa abandonar sistemas movidos apenas por velocidade, escala e lucro, e construir estruturas que reconheçam o valor das pessoas, da identidade e da integridade criativa. Visibilidade, acesso justo e apoio de longo prazo precisam substituir a inclusão simbólica. A indústria já possui as ferramentas, o talento e a tecnologia para isso, o que falta agora é a vontade de redesenhar prioridades em torno da humanidade, e não da extração.
MG – Para concluir, agradecemos pela entrevista exclusiva concedida à Magazine Le Afrique Style Brazil, a primeira revista africana de moda no Brasil. Que mensagem você gostaria de deixar para nossos leitores sobre o poder da moda como ponte cultural entre continentes, identidades e futuros possíveis?
Gita: A moda é muito mais do que uma indústria, é uma linguagem compartilhada. Ela carrega memória, identidade e imaginação através das fronteiras, sem necessidade de tradução. Quando usada de forma consciente, a moda se torna uma poderosa ponte cultural, conectando continentes, comunidades e futuros possíveis. Em um mundo marcado por divisões e incertezas, a criatividade oferece um espaço de diálogo, segurança e reconhecimento mútuo. Acredito que o futuro da moda pertence àqueles que protegem a diversidade, honram a herança cultural e usam a criatividade não para separar, mas para unir.

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