

Ekaterina Da Silva Diretora de Moda da Unique Fashion
Ekaterina Da Silva o DNA na Moda da Unique Fashion.
Moda, cultura e estratégia em uma linguagem global contemporânea.
Por Eliana Oliveira
Editora de Moda
Antes de falar sobre estratégia, plataformas globais ou sustentabilidade aplicada à indústria da moda, é preciso falar sobre presença. Ekaterina Da Silva carrega uma presença que não se impõe, ela se afirma. Existe nela uma elegância silenciosa, construída não pela estética do excesso, mas pela clareza de visão e pela coerência entre discurso e prática. Conversar com Ekaterina é compreender que a moda, para ela, nunca foi um fim em si mesma, mas um sistema vivo, onde cultura, economia, ética e identidade caminham juntas. Sua trajetória internacional revela uma profissional que entende profundamente os processos da indústria, seus impactos e, sobretudo, suas responsabilidades. Nada em sua narrativa é performático. Tudo é estruturado. Assim como uma coleção bem editada, sua fala é precisa, contemporânea e essencial. Cada resposta revela uma mulher que pensa a moda para além da passarela, como linguagem global, ferramenta de diálogo intercultural e plataforma de transformação real. Existe método, mas também escuta. Existe estratégia, mas também sensibilidade. É esse equilíbrio que define o DNA da Unique Fashion Show: uma plataforma que não busca holofotes vazios, mas relevância duradoura. E é por isso que esta entrevista não se propõe apenas a apresentar uma diretora global de moda, mas a aproximar o leitor de uma mulher que constrói, diariamente, os alicerces de uma moda mais consciente, institucionalmente sólida e culturalmente conectada ao seu tempo.

Na interseção entre moda, estratégia e cultura global, Ekaterina Da Silva construiu uma trajetória que transcende passarelas e tendências efêmeras. Diretora Global de Marcas e Moda da Unique Fashion Foundation Association e do Unique Fashion Show, ela atua como arquiteta de ecossistemas criativos que unem sustentabilidade, inovação e diálogo intercultural. Com quase duas décadas de experiência internacional, sua visão reflete uma moda consciente, institucionalmente sólida e culturalmente relevante, uma linguagem silenciosa, porém poderosa, que conecta territórios, gerações e narrativas. Nesta entrevista exclusiva para a Magazine Le Afrique Style Brazil, Ekaterina compartilha os princípios que definem o DNA da Unique Fashion e sua leitura sobre o presente e o futuro da moda global.

MG – Sua trajetória na moda começa nos Emirados Árabes Unidos, em um momento em que o próprio mercado regional ainda estava se formando. Como essa experiência inicial moldou sua visão estratégica para construir plataformas de moda globalmente relevantes?
Ekaterina Da Silva: Iniciar minha carreira nos Emirados Árabes Unidos, no início dos anos 2000, significou construir sem manual. Não havia sistemas fixos nem hierarquias herdadas da moda, apenas ambição, diversidade cultural e velocidade. Esse ambiente me treinou a pensar de forma estrutural e global desde o primeiro dia. Quando nada está estabelecido, você aprende a construir pontes entre culturas, mercados e mentalidades, em vez de copiar modelos existentes. Essa experiência moldou minha convicção de que relevância não vem da geografia, mas da visão, da adaptabilidade e da capacidade de traduzir narrativas locais para uma linguagem global.
MG – Com formação em Administração de Empresas e especialização em desenvolvimento de marcas e consultoria de imagem, como você equilibra a racionalidade estratégica e a sensibilidade criativa no seu trabalho diário?
Ekaterina Da Silva: Meu papel como gestora empresarial envolveu a criação de empresas em diferentes países e o acompanhamento de suas operações nas fases iniciais. Essa experiência me ensinou a me adaptar rapidamente a ambientes de trabalho e culturas diversas, algo fundamental ao organizar edições do Unique Fashion Show ao redor do mundo. Não vejo estratégia e criatividade como opostas, a estratégia dá longevidade à criatividade, e a criatividade dá significado à estratégia. Meu trabalho existe exatamente nessa interseção, onde a intuição encontra a estrutura. Analiso dados, mas também leio energia; confio na pesquisa, mas confio ainda mais nas pessoas. O equilíbrio vem da compreensão de que a moda é, ao mesmo tempo, uma indústria emocional e um ecossistema econômico sério. Ignorar qualquer um desses lados enfraquece todo o sistema.
MG – Ao longo de quase duas décadas, você construiu e liderou plataformas de moda que vão além da passarela. O que define, para você, um ecossistema de moda sólido, institucionalmente confiável e culturalmente relevante?
Ekaterina Da Silva: Um ecossistema de moda credível não existe apenas durante a fashion week. Ele funciona ao longo de todo o ano. Apoia talentos antes e depois da visibilidade. Dialoga com instituições, mas escuta as comunidades. A relevância cultural nasce do diálogo, não da dominação. A credibilidade institucional vem da consistência, da transparência e do impacto de longo prazo não apenas da escala. Se uma plataforma não consegue sobreviver sem espetáculo, ela ainda não é sólida o suficiente.

MG – Seu trabalho se destaca por conectar designers, varejo, mídia, instituições culturais e o setor público. Como essa abordagem colaborativa fortalece a sustentabilidade da indústria a longo prazo?
Ekaterina Da Silva: A moda entra em colapso quando opera em silos. Designers sozinhos não conseguem sustentar uma indústria, assim como instituições sem criatividade se tornam irrelevantes. A colaboração cria resiliência. Quando diferentes setores se conectam, o risco é compartilhado, o conhecimento circula e as oportunidades se multiplicam. Sustentabilidade não é apenas ambiental é estrutural. E estrutura se constrói coletivamente.
MG – A sustentabilidade ocupa um lugar central no seu trabalho. Como integrar práticas responsáveis e inovação sustentável sem comprometer a integridade criativa da moda?
Ekaterina Da Silva: A sustentabilidade não deve ser uma limitação, deve ser uma ferramenta de design. O problema surge quando ela é tratada como um elemento secundário ou apenas como um rótulo de marketing. Quando a responsabilidade está integrada desde o conceito até a execução, a criatividade se expande em vez de se reduzir. A inovação acontece justamente quando as limitações forçam novas soluções. Criatividade sem responsabilidade tem vida curta.
MG – Após sua recente formação no Instituto Europeu de Inovação e Sustentabilidade, quais transformações você considera mais urgentes para que a moda avance de forma ética, consciente e economicamente viável?
Ekaterina Da Silva: A moda precisa desacelerar intelectualmente, não criativamente. Precisamos repensar os ciclos de produção, redesenhar as cadeias de valor e enfrentar as realidades da superprodução e do acesso desigual. A transparência deixou de ser opcional, ela é o ponto de partida. A educação é igualmente essencial, para designers, consumidores e instituições, porque sem conhecimento a sustentabilidade corre o risco de permanecer apenas um slogan. Tão importante quanto isso é a forma como comunicamos essa transformação. Precisamos falar com os consumidores em uma linguagem envolvente e acessível, mostrando que a sustentabilidade não é apenas o futuro, ela já está acontecendo. Designs sustentáveis podem ser tão ousados, criativos e estilosos quanto a moda tradicional, provando que escolhas éticas e criatividade podem coexistir de forma bela.
MG – Como Diretora Global de Marcas e Moda da Unique Fashion Foundation Association e do Unique Fashion Show, qual é sua principal responsabilidade na definição do DNA estético e estratégico da plataforma?
Ekaterina Da Silva: Minha responsabilidade é a coerência. Cada escolha estética precisa estar alinhada a um propósito mais profundo. O Unique Fashion Show não é sobre tendências é sobre narrativas, vozes e contexto. A missão da nossa equipe é proteger a integridade da plataforma, permitindo que ela evolua. Um DNA forte não resiste à mudança ele a absorve de forma inteligente.
MG – Como você traduz a visão institucional da Unique Fashion em experiências de moda que dialogam com diferentes culturas, territórios e gerações?
Ekaterina Da Silva: Escutando antes de curar. Não impomos narrativas; criamos estruturas onde diferentes histórias podem coexistir. Cada edição é moldada pelo seu local, contexto social e energia criativa. A moda se torna uma conversa, não um monólogo. É assim que ela permanece relevante entre culturas e gerações.

MG – O desenvolvimento de talentos emergentes e o empoderamento feminino fazem parte do DNA da Unique Fashion. Como essas iniciativas se refletem na curadoria e na programação estratégica da plataforma?
Ekaterina Da Silva: Não tratamos talentos emergentes como uma “categoria”, eles fazem parte do ecossistema da plataforma. O mesmo vale para o empoderamento feminino. Iniciativas como Women in Search of Freedom não são simbólicas; são operacionais. Da curadoria às parcerias, criamos acesso real, visibilidade e oportunidades econômicas. Iniciativas de empoderamento só têm valor quando geram resultados concretos.
MG – Na sua visão, qual é o papel das mulheres em posições de liderança na construção de um futuro mais justo, inclusivo e globalmente conectado para a moda?
Ekaterina Da Silva: Mulheres em posições de liderança redefinem prioridades. Elas tendem a pensar em sistemas, não apenas em momentos. Inclusão, ética e visão de longo prazo entram naturalmente no processo de tomada de decisão. Isso não se trata de superioridade de gênero, mas de equilíbrio. A moda sempre contou com mulheres na criação; chegou a hora de que sua liderança também molde as estruturas.
MG – Ao observar o cenário global da moda hoje, quais mudanças estruturais você considera essenciais para que a indústria permaneça relevante nos próximos anos?
Ekaterina Da Silva: Descentralização. O futuro da moda não pertence a poucas capitais. A transformação digital, os ecossistemas regionais e os novos mercados irão redefinir o que é relevância. A moda também precisa aceitar a responsabilidade cultural, social e ambiental. Sem isso, a credibilidade se perde.
MG – Quais são os próximos passos estratégicos e projetos do Unique Fashion Show sob sua direção, especialmente em relação à sustentabilidade, inovação e expansão internacional?
Ekaterina Da Silva: Estamos fortalecendo iniciativas lideradas pela fundação, expandindo experiências digitais e “phygital” e aprofundando nossa presença em regiões criativas emergentes. Para nós, inovação não é apenas tecnológica é social, cultural e estrutural. A expansão só faz sentido quando gera valor local, e não apenas visibilidade global.

MG – Se a moda fosse uma linguagem silenciosa, como você definiria o DNA que Ekaterina Da Silva imprime na Unique Fashion?
Ekaterina Da Silva: Curiosa. Consciente. Desconfortável no melhor sentido. Uma linguagem que faz perguntas em vez de oferecer respostas, e convida outros a se expressarem através dela.
MG – A moda brasileira se destaca pela diversidade cultural, criatividade autoral e uma identidade em constante evolução. Como você enxerga o papel do Brasil no cenário contemporâneo da moda global?
Ekaterina Da Silva: O Brasil ocupa um papel distinto e cada vez mais influente na moda global contemporânea. Sua indústria é movida por uma rara inteligência emocional, que combina ritmo, contraste e profundidade narrativa, características cada vez mais valorizadas globalmente. A indústria da moda brasileira normalizou a diversidade de corpos muito antes de isso se tornar uma tendência internacional. No Brasil, a sustentabilidade não é uma tendência, mas uma necessidade, já que a indústria opera na interseção entre moda e urgência ambiental, com a Amazônia representando ao mesmo tempo recurso e responsabilidade, posicionando designers brasileiros na linha de frente do discurso sustentável. Acredito fortemente que o Brasil está preparado para se tornar um dos líderes globais em inovação sustentável, ampliar sua presença em semanas de moda internacionais e no varejo global, e influenciar uma nova geração de designers que priorizam identidade em vez de conformidade. Embora ainda existam desafios de infraestrutura, visibilidade e acesso, criativamente o Brasil já está à frente.
MG – A moda africana tem assumido um papel cada vez mais relevante no discurso internacional, unindo ancestralidade, inovação e sustentabilidade. Como você interpreta a contribuição da África para redefinir o futuro da moda global?
Ekaterina Da Silva: Nos últimos anos, a África finalmente vem recebendo a atenção que sempre mereceu da indústria global da moda, e pelos motivos certos. Hoje, quando falamos da região africana, não falamos apenas de grandes aterros ou resíduos têxteis, mas de soluções, inclusão, comércio justo e criatividade. A África está redefinindo o futuro da moda global ao unir herança cultural, inovação e sustentabilidade de maneiras que o mundo começa apenas agora a reconhecer. Plataformas como a Lagos Fashion Week evoluíram de vitrines de talentos para referências em design circular e produção ética. Em 2025, a Lagos Fashion Week recebeu o Earthshot Prize na categoria “Build a Waste-Free World”, tornando-se a primeira plataforma de moda africana a alcançar esse reconhecimento. Esse prêmio também acelera a criação do primeiro Circular Fashion Hub da África, em Lagos um centro de pesquisa, reciclagem têxtil, inovação em materiais e incubação de designers, conectando cidades em todo o continente. Designers africanos estão provando que a moda sustentável pode ser ousada, criativa e culturalmente autêntica, mostrando à indústria global que herança e responsabilidade podem impulsionar tanto o estilo quanto o crescimento econômico. A África não está apenas participando da moda global, ela está liderando a conversa sobre como a indústria pode ser ética, inovadora e economicamente viável ao mesmo tempo.
MG – Considerando a vocação intercultural da Unique Fashion, você vê espaço para uma conexão mais estruturada entre a plataforma e o mercado brasileiro? Como esse diálogo poderia acontecer?
Ekaterina Da Silva: Sem dúvida. Vejo um enorme potencial para que o Unique Fashion Show construa uma conexão estruturada com o mercado brasileiro. A moda brasileira é rica em autenticidade, narrativa e inovação, especialmente no campo da sustentabilidade e do design consciente do corpo valores que se alinham perfeitamente à visão intercultural da UFS. Ao apresentar designers brasileiros, promover painéis sobre artesanato e sustentabilidade ou facilitar coleções colaborativas, a UFS pode criar uma ponte direta entre o ecossistema criativo brasileiro e o público global. Esse diálogo celebraria a identidade vibrante do Brasil enquanto inspira a comunidade internacional da moda, reforçando a UFS como uma plataforma onde cultura, criatividade e intercâmbio global realmente convergem.
MG – Para concluir, agradecemos pela entrevista exclusiva concedida à Magazine Le Afrique Style Brazil, a primeira revista africana de moda no Brasil. Como você vê a importância de iniciativas editoriais como esta, que conectam a África à moda global e constroem novas pontes culturais no mercado internacional?
Ekaterina Da Silva: Plataformas editoriais moldam narrativas antes mesmo dos mercados. Iniciativas como a Le Afrique Style Brazil não apenas reportam moda, elas a contextualizam. Ao conectar a África às conversas globais, desafiam estereótipos e criam novas economias culturais. Esse tipo de narrativa não é mais opcional é essencial.

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